Viaje e Acampe em Superfícies Duráveis: Arte de Não Deixar Rastros

Entenda como minimizar seu impacto no outdoor tendo em mente a realidade dos nossos parques e trilhas em terras particulares

Conteúdo deste artigo:

Introdução

Damos continuidade à nossa série especial sobre a Arte de Não Deixar Rastros. Hoje, o tema é o Princípio 2: Viaje e acampe em superfícies duráveis.

Na teoria, esse princípio diz para você pisar apenas onde não causará dano. Na prática, especialmente no Brasil, a gente sabe que o cenário é complexo. Enquanto na Europa ou nos EUA existem trilhas como a Appalachian Trail ou as Dolomitas, com demarcações perfeitas e áreas de camping fixas, por aqui o trilheiro precisa de muito mais discernimento e bom senso.

Acreditamos que o bom senso é a bússola da preservação. Abaixo, explicamos como aplicamos a técnica das superfícies duráveis na realidade das nossas montanhas e expedições off-road.

Direto ao Ponto (TL;DR)

  • Prioridade Zero: Sua segurança sempre vem primeiro. Se precisar desviar de um risco real, pise onde for necessário.
  • Em Parques Geridos: Use as áreas de camping definidas e não saia da trilha demarcada (ex: Veadeiros, Itatiaia). Não há motivos para não seguir as regras.
  • Em Áreas “Largadas” ou Particulares: Use trilhas já abertas e áreas de solo compactado. Evite abrir novos caminhos a menos que o acesso original tenha sido bloqueado.
  • O que é durável: Rocha, cascalho e trilhas já estabelecidas.

O que são superfícies duráveis?

O ranking de onde pisar e estacionar é:

  1. Rocha e Cascalho: O melhor dos mundos. Zero impacto.
  2. Trilhas estabelecidas: Mesmo que tenham lama ou pedras soltas.
  3. Grama Seca: Aguenta bem o pisoteio temporário.
  4. Vegetação Frágil: Musgos, mudas e campos rupestres. Evitamos ao máximo, pois a recuperação é lenta ou impossível.

Na trilha: O rastro que deixamos

As trilhas existem para concentrar o dano em um lugar só. Quando caminhamos a pé pelas trilhas, percebemos que o pisoteio fora do caminho principal cria cicatrizes que levam anos para fechar.

Como nós pensamos:

Em trilhas a pé: Tentamos nos manter no centro do caminho. Se houver uma poça de lama, passamos por dentro se for seguro. Mas, se o caminho estiver erodido de uma forma que ofereça risco de torção ou queda, nós vamos buscar a melhor forma de passar. O rastro na grama dói menos que um tornozelo quebrado.

Chegando a praia da Lagoinha do Leste, em Florianópolis, SC.
Travessia da Lagoinha do Leste
(Florianópolis, SC)
Descendo para a Praia do Bonete - Trilha das Sete Praias, pela trilha já aberta e comum, uma superfície durável.
Travessia das Sete Praias
(Ubatuba, SP)

No Off-road: Se chegamos em um trecho onde a erosão é impossível de passar no caminho principal, e não há como voltar (por falta de combustível ou por ser perigoso demais encarar os obstáculos anteriores de novo), nós vamos cortar por trilhas secundárias. É o ideal para a natureza? Não. Mas entre ficar encalhado no meio do nada ou passar pelo lado, a segurança sempre prevalece. O segredo é fazer isso com consciência, tentando causar o menor estrago possível. A Serra da Canastra é um exemplo onde encontramos diversas trilhas secundárias, terciárias… É comum ver trilhas secundárias gigantes para fugir de erosões.

Trilha de carro no Parque Estadual da Serra do Papagaio, em Alagoa, MG.

Onde montar a barraca?

Acampar com baixo impacto é mais sobre seleção do que sobre esforço.

  • Ache, não faça: Se precisamos de um lugar para acampar, procuramos uma “superfície de sacrifício”, um local onde o solo já está compactado ou onde é rocha/cascalho. Nunca abrimos mata ou arrancamos plantas para “criar” uma vaga pra gente. Se não cabe, seguimos em frente até achar um lugar que comporte nosso setup.
  • Perto da Água: Gostamos de dormir ouvindo o rio, mas mantemos uma distância segura. Não é só pela preservação, é por segurança real: cabeças d’água e marés não avisam quando chegam.
Acampando ao Lado do Rio São Francisco, na Serra da Canastra/MG.
Camping Particular, uma Superfície Durável, na Serra da Canastra, MG

A Realidade Brasileira

Onde você caminha no Brasil pode mudar completamente a aplicação dos métodos de preservação.

Parques Nacionais e Estaduais

Boa parte dos Parques Nacionais e Estaduais no Brasil até ajudam na aplicação da arte de não deixar rastros. Lugares como o Parque Nacional do Itatiaia ou Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros são bons exemplos. Eles têm placas, trilhas bem mantidas e áreas de camping específicas. Nesses locais, “superfície durável” é a regra: não há desculpa para acampar fora do local designado ou criar atalhos.

Terras Particulares

Grande parte das trilhas brasileiras passa por propriedades privadas. Diferente de outros países, onde a servidão de passagem é lei, aqui muitas vezes o acesso pode depende do humor do proprietário.

Um exemplo aconteceu na Serra do Papagaio (Aiuruoca, MG) em uma viagem recente. Retornamos a uma atração incrível, o Lajeado perto da Cachoeira dos Garcias, que fica dentro de área protegida, chegando lá, não podemos visitar, pois o acesso tradicional foi fechado por donos de terra.

Lajeado da Cachoeira dos Garcias
Lajeado da Cachoeira dos Garcias, Aiuruoca/MG

O Dilema do Rastro: Quando um dono fecha uma trilha estabelecida, a população local acaba sendo forçada a “abrir” um novo caminho. Do ponto de vista do de “não deixar rastros”, abrir trilhas é o rastro máximo. Contudo, entendemos que na nossa realidade, essa é a única forma de manter o acesso a recursos naturais públicos. Se tiver que abrir, que seja planejado e sobre solos mais resistentes.

E Agora?

A arte de não deixar rastros no Brasil exige que você seja um pensador crítico. Não siga regras cegas de manuais internacionais; aplique-as com bom senso ao nosso terreno. Faça o seu melhor para preservar o que resta, respeite as cercas, mas priorize sempre a sua segurança.

Para o próximo post sobre o tema, continuaremos a série com o Princípio 3: Descarte resíduos de forma apropriada. Vamos falar sobre como gerenciar o lixo e os dejetos humanos sem contaminar a nossa terra.

E você, já se sentiu frustrado com a falta de manutenção de algum parque ou com trilhas fechadas em terras particulares?

Referências

https://lnt.org | Leave No Trace

https://www.nps.gov/articles/leave-no-trace-seven-principles.htm | Leave No Trace Seven Principles (U.S. National Park Service)


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