Respeite a Vida Selvagem: Arte de Não Deixar Rastros

O Princípio na prática brasileira: por que não alimentar animais e a polêmica dos pets em áreas protegidas.

Conteúdo deste artigo:

Introdução

Avistar um bicho solto na natureza é sempre um presente. Seja o voo de um tucano na Mantiqueira ou o movimento rápido de uma cutia cruzando a trilha, esses encontros nos lembram por que saímos de casa. No entanto, precisamos entender que, ao pisar no mato, estamos entrando na casa deles.

Muitos aventureiros, por empolgação ou falta de informação, acabam interferindo na rotina dos animais, o que pode gerar comportamentos agressivos, doenças e até a morte dos bichos.

Somos mais inclinados à observação silenciosa. Abaixo, explicamos a base técnica deste princípio e como aplicamos o bom senso diante da realidade (por vezes dura) da fauna brasileira.

Direto ao Ponto (TL;DR)

  • A Regra: Observe de longe. Se o animal mudou o comportamento por sua causa, você está perto demais.
  • Nunca alimente: Comida humana adoece os animais e os torna dependentes e agressivos.
  • Controle os Pets: Respeite as proibições em Unidades de Conservação. O seu pet pode introduzir doenças na fauna nativa.
  • Caça e Proteção: Falta fiscalização no Brasil. Denuncie práticas ilegais e não compactue com quem caça por “esporte”.

O que rege este princípio?

Respeitar a vida selvagem significa ser um visitante invisível. O objetivo central é permitir que os animais sigam suas vidas (alimentação, reprodução e descanso) sem a interferência humana. Quando nos aproximamos demais ou oferecemos comida, quebramos o ciclo natural e colocamos tanto o animal quanto nós mesmos em risco.

Distância é o melhor zoom

Sempre que avistamos um animal, a distância que já estamos costuma ser o suficiente. Não tentamos seguir, cercar ou “correr atrás” para tirar uma foto melhor.

Eu (Romário) tenho um complicador: sou “cegueta” e evito usar óculos na trilha por conforto. Como meu grau é baixo, às vezes demoro a identificar o que vi, mas a regra não muda: usamos o zoom da câmera e nunca as nossas pernas para chegar perto. Já cruzamos com esquilos, saguis, saruês e diversos pássaros como papagaios, tucanos e pica-paus. Todos foram observados de onde estávamos, respeitando o espaço deles.

Carcará nas Arvores Baixas de Cerrado, na Serra da Canastra/MG.
Carcará nas árvores baixas de Cerrado, na Serra da Canastra/MG.

E as cobras? Curiosamente, eu nunca vi uma cobra na trilha, mas a Karine já avistou algumas. Como não somos especialistas na biologia, tratamos todas com o mesmo respeito e distância, independentemente de serem peçonhentas ou não.

O Erro da Alimentação

Nós não nascemos sabendo de tudo. No passado, cometemos o erro clássico de achar que “apenas uma bananinha” para um sagui fofo não faria mal.

Aconteceu em Florianópolis. Deixamos uma fruta para um sagui e o resultado foi imediato: a família inteira retornou no dia seguinte, e no outro, pedindo mais.

  • A lição: O animal deixa de buscar sua comida natural e vira um “pedinte”. Isso desregula o organismo dele e pode torná-lo agressivo se a comida parar de vir.
Saguis visitando diariamente nossa hospedagem para pedir Bananas, em Florianópolis/SC.

Restos de Comida e Animais “Viciados”

Não é só dar comida na mão; largar restos de comida ou lixo aberto no acampamento é um convite ao desastre. Isso atrai animais para perto das barracas. Já vimos quatis atravessando a BR-101 em Ubatuba, claramente acostumados com a presença humana. Em muitos parques brasileiros, esses animais já aprenderam a abrir mochilas e destruir equipamentos em busca de lanches. Mantenha seu lixo lacrado e sua comida protegida, preferencialmente dentro do carro.

O Dilema dos Pets no Mato

Como já mencionamos anteriormente, no post O que encontrar na natureza, deixe na natureza: A Arte de Não Deixar Rastros, esse assunto é delicado e tem de ser espalhado e debatido com toda a população. Vemos muitas pessoas levando cachorros para praias e trilhas remotas. Embora amemos animais, é preciso ter discernimento e bom senso.

Em UCs (Unidades de Conservação) de Proteção Integral, como Parques Nacionais e Estaduais, a presença de animais domésticos é proibida por lei. Já em APAs (Áreas de Proteção Ambiental), embora as regras possam ser mais flexíveis, a entrada de pets em trilhas e áreas remotas também deve ser evitada por motivos sérios:

  • Patógenos: Cães podem introduzir bactérias e micro espécies às quais os animais silvestres não têm imunidade.
  • Danos Diretos: Pets podem pisar em ninhos, caçar ou afugentar pequenos animais ou mastigar plantas raras.
  • Segurança: Dejetos de animais domésticos são “espécies invasoras” microscópicas. (Lembre-se do nosso post sobre Descarte de Resíduos: o que não pertence ao local, não deve ficar lá).

Inclusive, no estado de São Paulo a lei que determina essa proibição em UCs Estaduais diz:

Nos Parques Estaduais não é permitida a entrada de animais domésticos, conforme o Decreto Estadual nº 25.341/1986.

Art. 16 – Animais domésticos, domesticados ou amansados, sejam aborígenes ou alienígenas, não poderão ser admitidos nos Parques Estaduais. Parágrafo único – Exceções somente para animais destinados a serviços dos Parques Estaduais, conforme determinações do Plano de Manejo.

Se a norma do parque proíbe, respeite. A natureza selvagem não é o habitat do seu pet, e a diversão dele não pode custar a saúde do ecossistema.

Uma Reflexão Necessária sobre a Caça

Em nossas andanças, já ouvimos relatos tristes de pessoas se gabando de terem matado onças-pardas, jacarés, tatus e macacos. No Brasil, falta muita informação, fiscalização e punição real.

A caça controlada (como a do Javali para manejo de espécie invasora) é uma ferramenta técnica aceitável em muitos países, mas por aqui, o que impera ainda é a caça predatória e sem critério. É preciso educar e cobrar das autoridades locais que essas práticas deixem de ser tratadas como “folclore” e passem a ser combatidas como crimes ambientais que são.

E Agora?

Na sua próxima aventura, tente ser um espectador, e não o protagonista. Deixe que o som dos pássaros e o movimento das matas sigam seu curso natural. A maior recompensa é saber que, após a sua partida, a vida ali continuou exatamente como era.

Na próximo post da série da Arte de Não Deixar Rastros, encerraremos com chave de ouro, explicando o Princípio 7: Tenha consideração pelos outros. Vamos falar sobre a etiqueta da trilha, caixas de som e o uso de drones.

E você, já teve algum encontro marcante com animais na trilha? Como foi a sua reação?

Referências

https://lnt.org | Leave No Trace

https://www.fflorestal.sp.gov.br/ | Fundação Florestal SP – FAQ – Item 6

https://petapixel.com | Hiker in Alaska Killed After Taking Close-Up Pictures of a Grizzly Bear


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